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                Em algum lugar da freguesia de Vila Ruiva, no Alentejo, ao sul de Portugal, pode-se admirar de perto, através de expositores, a vida secreta das colônias de muitas espécies de formigas, abelhas, vespas e térmitas, e todas aquelas atividades  aparentemente simples que constituem estas pequenas sociedades complexas,  tais como a postura das rainhas, a metamorfose das larvas, a construção dos ninhos e muitas coisas mais.

            Este laboratório-museu, de nome Cappas Insectozoo, foi inaugurado em 1998 por João Pedro Cappas e Sousa como um Centro de Pesquisas que tem por finalidade a preservação e o estudo de insetos que permitem a vida do homem no planeta Terra. Deste modo, os visitantes também têm a oportunidade de aprender algo da história antropológica e a sua relação com os insetos sociais.

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            O prof. Cappas é um pesquisador reconhecido mundialmente pelos seus importantes estudos a respeito dos insetos sociais, especialmente sobre os meliponíneos, em cujos estudos teóricos iniciou-se em 1975, após receber o livro de Paulo Nogueira-Neto: “A Criação de Abelhas Indígenas Sem-Ferrão” (1970). Em 1989, veio ao Brasil para assistir à Apimondia e conhecer pessoalmente o seu mestre.

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            Em 1999, participou de uma Viagem de estudos de meliponicultura com o prof. Paulo Nogueira-Neto (Brasil), o prof. Jorge Gonzáles Acereto (México), a bióloga Margarita Medina Camacho (México) e o técnico Javier Ortiz Bautista (México). Esta viagem demonstrou um bom intercâmbio entre estas culturas (portugueses, brasileiros e mexicanos) para o desenvolvimento da meliponicultura mundial.

Desde então, o prof. Cappas tem se dedicado a divulgar os seus conhecimentos aos seus amigos brasileiros através da sua participação em diversas listas de discussão sobre abelhas: em 1998, frequentava a extinta lista de discussão BEEBR, da Universidade Federal de Viçosa; a partir de 2003, tornou-se presença constante nas mensagens do grupo ABENA; e agora, em 2013, passou a fazer parte do Fórum Brasileiro de Meliponicultura.

Muitos dos seus conhecimentos teóricos e práticos se encontram disponíveis nos conteúdos das mensagens destes grupos de discussão e podem ser diretamente acessados através da Internet. Com o objetivo de divulgar e incentivar a multiplicação destas informações, apresentamos a seguir uma série completa de resumos dos artigos publicados pelo prof. Cappas na revista portuguesa “O Apicultor”. Os artigos originais podem ser diretamente acessados no site do autor: http://cappas-insectozoo.com.pt/trabalhos/abelhas_SF.pdf ou  http://www.abelhasemferrao.com/wp-content/uploads/2013/06/abelhas_SF.pdf

Resumos do artigos encontrados no arquivo abelhas_SF.pdf:

1) A Apicultura e a Meliponicultura (Parte I). No primeiro artigo da série, o prof. Cappas apresenta aos leitores algumas das artes derivadas da relação entre o homem e a Natureza e que se dedicam ao cultivo de insetos sociais, como a Apicultura (criação de abelhas do gênero Apis), a Meliponicultura (criação de abelhas-sem-ferrão), a Bombicultura (criação de mamangavas do gênero Bombus) e a Vespicultura (criação de vespas).

2) A Apicultura e a Meliponicultura (Parte II). Nesta continuação, são descritos alguns dos benefícios obtidos pelo homem através da relação com outros insetos sociais, por meio da prática da Formicidicultura (criação de formigas) e da Termiticultura (criação de cupins).

3) Os Meliponíneos. Abordando especificamente os meliponíneos, o autor apresenta alguns aspectos gerais da sua biologia e origem evolutiva, indo desde o seu surgimento no continente africano, passando pela dispersão na América, até a sua extinção e reintrodução recente no continente europeu.

4) Conhecer as Rainhas (I Parte). Agora, o prof. Cappas aprofunda-se ainda mais na biologia das abelhas-sem-ferrão ao estudar as diferenças entre as tribos Meliponini e Trigonini. Afirma, entre outras coisas, que não cumpre à rainha o papel exclusivo de colocar ovos, mas a sua principal função é regular, quimicamente, a colônia. A partir do caso das rainhas desativadas, conclui-se pela existência de 2 feromônios secretados pela casta real. Também foi estabelecida a distinção entre os alvéolos reais de Apis mellifera e os alvéolos reais de Trigona.

5) Conhecer as Rainhas (II Parte). Partindo da análise de um trecho do livro de Paulo N. Neto sobre a existência de rainhas de Trigonini que emergem de células de operárias (rainhas anãs), fica evidente que a diferenciação entre rainha e operárias não decorre do tamanho das células de crias. O polimorfismo de castas, este sim, é determinado pelo Feromônio Corporal Real, o qual regula o tamanho e diâmetro das células. Os efeitos da variação deste feromônio na Comunicação Globalizante são demonstrados em seguida.

6) Conhecer as Rainhas (III Parte). A substância secretada pelas glândulas mandibulares das rainhas virgens e foi designada Feromônio Mandibular Real. Este feromônio confere ao seu produtor o título de “Forma Real” e pode ser usado tanto para explicar os conflitos durante a fase de aceitação das rainhas virgens, como a formação das côrtes ativa e passiva. São descritos, em seguida, os diferentes meios empregados pela rainha para disseminar esse odor pela colônia.

7) Conhecer as Rainhas (IV Parte). Este texto trata da utilização do Feromônio Mandibular Real na Comunicação Momentânea e o seu papel inibidor na formação da casta real. Contém, além disso, a narração de um experimento realizado na USP, que levou o autor à descoberta de um novo tipo de ritual de aceitação das rainhas virgens por meio do uso do Feromônio Corporal Real (Ritual Priscila).

8) Obreiras normais, obreiras-rainhas e as obreiras-rainhas-especiais (Parte I).  Qualquer operária pode converter-se em obreira-rainha, ou seja, pode adquirir a capacidade de produzir Feromônios Reais. Umas das funções das obreiras-rainhas é manter a coesão social em casos de orfandade, enxameação e divisão da colônia. O prof. Cappas discute, em seguida, a influência da quantidade de alimento e dos níveis de Hormônio Juvenil na determinação de castas.

9) Obreiras normais, obreiras-rainhas e as obreiras-rainhas-especiais (Parte II).  A comparação entre rainhas gigantes e obreiras gigantes em Melipona sugere que a ativação ou desativação dos genes reais decorre de um agente externo ao ovo. Uma série de fatos descritos em seguida permite comprovar a hipótese da diferenciação de castas através do “Bafo Real” (Feromônio Mandibular Real), como, p. ex., a ocorrência de intercastas e o nascimento de operárias a partir de ovos colocados por obreiras-rainhas-especiais (fecundadas).

10) Obreiras normais, obreiras-rainhas e as obreiras-rainhas-especiais (Parte III). Os feromônios são substâncias químicas de uso externo, secretadas pelos insetos que pertencem à “elite” da colônia, que são utilizadas por eles como meios de comunicação. Nos insetos sociais, o processamento dessas informações ocorre no interior dos corpora pedunculata. Através de observações a respeito do comportamento de coleta das mandaçaias, o autor demonstra que o trabalho mental das operárias dos meliponíneos é muito superior ao das Apis mellifera e envolve memórias de longo prazo e o uso de conhecimentos adquiridos.´

11) Os Ovos. Neste artigo, o prof. Cappas ensina que a capacidade de colocar ovos tróficos não é exclusiva das operárias, porque as rainhas também podem produzi-los se, para isso, receberem Feromônios Reais de outros indivíduos. Tal afirmação pode ser diretamente comprovada a partir dos exemplos de uma colônia inicial da formigaMessor barbara e da desibernação da abelha Plebeia remota. Por outro lado, os ovos férteis das vespas Polistestambém podem ter uma função alimentar.

12) Ovos e Rituais de Postura. Rituais de postura são todos os atos anteriores que envolvem a postura do ovo. Eles obedecem a regras sociais que, no caso dos meliponíneos, são ditadas pelos Feromônios liberados pela classe coordenadora ou “Elite”. Alguns desses jogos feromonais estão representados na descrição do “Ritual de Postura Padrão de Plebeia remota” e no “Ritual do Alimentador Real”.

13) Rituais de Postura e a Construção dos Favos de Cria. A dinâmica da construção dos favos é explicada através do emprego do Feromônio Corporal Real produzido pela “Forma Real”. O autor descreve, em seguida, o início da construção de um favo de cria a partir da formação da “Cilha Real” em três espécies: Plebeia remota,Tetragonisca angustula e Melipona quadrifasciata.

14) Feromônio Corporal na Comunicação Momentânea. Neste texto, compreendemos como o Feromônio Corporal Real orienta as abelhas nos trabalhos de construção dos favos de crias em cacho, horizontais e helicoidais, bem como o padrão de ordens interepecíficas que esse feromônio assume no ritual de postura de jataí. Em seguida, são descritos alguns usos do Feromônio Corporal de Obreira secretado pelas operárias no interior e no exterior da colônias.

15) Feromônio Corporal na Comunicação Momentânea II Parte. Através de um trecho do livro “Abelha Jandaíra” do padre Huberto Bruening, o prof. Cappas examina o papel neutralizador do Feromônio Corporal de Obreira no ritual de postura, além da sua capacidade de despertar as abelhas durante o processo de desibernaçao em Plebeia remota e Melipona subnitida.

16) Feromônio Corporal na sua Vertente do Meliponíneo Pilhador. No mundo dos meliponíneos, o Feromônio Corporal de Obreira também pode ser usado como arma química, o que  pode ser verificado durante os trabalhos de pilhagem da abelha Iratim (Lestrimelitta limao). Essa substância é produzida pela segunda glândula tergal das operárias e possui um forte cheiro de limão. A narrativa de Álvaro Wille a respeito de um ataque de Lestrimelittas a um ninho de jataís é enriquecida com observações e interpretações do próprio autor.

17) As Regras Sociais das Guaraipos, um Meliponíneo Poligínico. Com a aclimatação de 2 colônias de Melipona bicolor em Portugal, no ano de 1997, o prof. Cappas inicia os seus estudos sobre esta espécie que possui várias rainhas morfológicas no mesmo ninho. Após tratar de alguns aspectos da sua morfologia, biogeografia e das diferenças entre as subespécies, o autor tenta nos explicar o fenômeno da poligenia a partir de regras de natureza feromonal. No final, encontra-se o relato da transformação de uma célula normal de Friesella schrottkyi em “Alvéolo Real” a partir da invasão de sua larva a 2 células vizinhas.

18) As Regras Sociais das Guaraipos, um Meliponíneo Poligínico (II Parte). Este artigo levanta diversas evidências de que o Feromônio Corporal Real é, nesta espécie, mais forte que o Feromônio Mandibular Real como, p. ex., o emprego do Ritual Priscila para a aceitação das rainhas virgens e o fato de estas serem eliminadas com cortes no abdômen. A presença permanente dos favos de crias novos sobre os favos antigos também é analisada por esta perspectiva.

19) As Regras Sociais das Guaraipos, um Meliponíneo Poligínico (III Parte). No último artigo sobre as guaraipo, o prof. Cappas investiga o mistério da ausência de ovos em favos de colônias perturbadas desta espécie e conclui que as Formas Reais estavam desativadas porque o Feromônio Corporal Real muito alto possui a capacidade de desativar os ovários das fêmeas.

20) A incrível versatilidade dos meliponíneos. O texto começa com a descrição da obreiras-pangolins, ou abelhas de alto escalão da colônia que perderam a capacidade de retirar a cera produzida no dorso do seu abdômen e, por isso, adquiriram a aparência de um pangolim africano. Acompanhamos, em seguida, a narrativa da destreza mental das operárias de uma colônia de mandaçaia em suas viagens de coleta que partiam de um lugar do qual nenhuma operária de Apis conseguiria sair. As habilidades de construção de uma colônia de Plebeia emerina demonstram, igualmente, que esta espécie é capaz de solucionar problemas complexos. O fenômeno da invasão das células vizinhas por uma larva real de Friesella schrottkyi é um exemplo de versatilidade das larvas. Nada se compara, entretanto, à capacidade de adaptação e às novas habilidades adquiridas por uma operária cega de Plebeia remota, a qual efetuava elaborados trabalhos com cerume.

21) No México a Meliponiterapia está renascendo. O prof. Cappas descreve-nos alguns dos efeitos benéficos dos produtos naturais comercializados pela empresa AIPROCOPA, elaborados  a partir de materiais produzidos pelas abelhas-sem-ferrão mexicanas, tais como méis, misturas de méis com pólen (ou própolis), pomadas e tinturas propóleas. O funcionamento de cada produto é apresentado de forma suscinta.

22) As Comunidades de Colônias. O fenômeno da Comunidade de Colônias envolve a permuta de indivíduos e substâncias feromonais entre diversas colônias, como vemos entre as abelhas Apis mellifera iberica e nas térmitas Reticulitermes. Em seguida o prof. Cappas cita o trecho impressionante de um livro de Rèmy Chauvin, “As Sociedades Animais”, para provar que tais associações também podem ocorrer entre colônias de espécies diferentes, a exemplo das comunidades formadas por Formica polyctena e Formica rufa.

23) As Comunidades de Colônias (III Parte). Este artigo é uma descrição dos dados registrados nos diários de 4 colônias de mandaçaia (Melipona quadrifasciata quadrifasciata) desde a sua importação do Paraná pelo autor, em 1992, para a cidade de Lisboa, até o ano de 1996, quando foram levadas para o Alentejo. A dinâmica das relações entre os enxames desta Comunidade de Colônias pode ser reconhecida pelo intercâmbio de abelhas entre elas, pelas alterações constantes nas elites e pelos processos de enxameação e absorção.

24) As Comunidades de Colônias (IV Parte). O prof. Cappas examina a formação destas comunidades entre colônias de diferentes espécies de meliponíneos, assim como a maior capacidade de defesa dessas associações perante os ataques das abelhas iratins. Os enxames destas abelhas pilhadoras podem, por sua vez, ser aceitos pacificamente como partes integrantes de uma Comunidade de Colônias de outras espécies, o que torna essa realidade extremamente complexa. Em seguida, o autor interpreta algumas técnicas praticadas na meliponicultura indígena mexicana que se baseiam neste conceito.

25) As Comunidades de Colônias (V Parte). Este texto narra a impressionante associação entre as abelhas Partamona cupira e as térmitas Constrictotermes cavifrons, que constroem cupinzeiros arbóreos em cujo interior as primeiras nidificam. As cupiras gozam, deste modo, da defesa química dos poderosos soldados nasutis. Todo o processo de enxameagem desta abelha, que coincide com a formação dos ninhos epífitos de Constrictotermes, é documentado e ilustrado pelo autor.

26) As Comunidades de Colônias (VI Parte) Conclusão. A associação dos meliponíneos com colônias de formigas também pode ser observada na natureza, a exemplo do que ocorre entre as abelhas Plebeia remota e as formigas Crematogaster, ou entre Melipona quadrifasciata e Camponotus rufipes. Por vezes, as Partamona preferem associar-se às bravas Azteca spp. A mistura de abelhas de espécies diferentes (observadas no interior da mesma colônia) também é um aspecto da formação de Comunidades de Colônias. O prof. Cappas apresenta, no final do texto, algumas conclusões gerais sobre o assunto.

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            O prof. Cappas também conseguiu resgatar antigos conhecimentos do cultivo de insetos sociais, como a Meliponicultura Maia que está escrita no Códice de Madrid. A civilização da Grande Abelha Vermelha – nos ensina o mestre Cappas – é um bom exemplo para todos nós: “Esta civilização usava as Abelhas Sem-Ferrão para manter a natureza na sua máxima estabilidade ecológica”. Estes estudos encontram-se disponíveis em http://cappas-insectozoo.com.pt/trabalhos/maias.pdf ou http://www.abelhasemferrao.com/wp-content/uploads/2013/06/maias.pdf