AS AMIGAS MIÚDAS QUE

FAZEM MEL SEM FERROAR

As Amigas Miúdas Que Fazem Mel Sem Ferroar (Abelha Sem Ferrão)

As Amigas Miúdas Que Fazem Mel Sem Ferroar

   

TEXTO DE

Mario Tessari

ILUSTRADO POR

Douglas Silva

   

Obra dedicada a todos os que fazem da vida

 uma oportunidade para melhorar o mundo.

 

Jaguaruna SC

2011

 

© do texto de Mario Tessari

© das ilustrações de Douglas Silva

José Halley Winckler

idealizou esse projeto de divulgação da meliponicultura.

Mario Tessari escreveu o texto.

Douglas Silva ilustrou.

Maria Elisa Ghisi incentivou, apoiou e revisou o texto.

FICHA CATALOGRÁFICA

_______________________________________________________________________________________________   Tessari, Mario.   As amigas miúdas que fazem mel sem ferroar / Mario Tessari;    ilustrações de Douglas Silva. – Jaguaruna: Edição do Autor, 2012.   36p. : il.  1. Abelha-sem-ferrão – Literatura infanto-juvenil. 2. Melípona – Literatura infanto-juvenil.  – I. Título.                                            

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AS AMIGAS MIÚDAS QUE FABRICAM MEL SEM FERROAR

 

Asefe se sentia diferente no meio daquela galera de fones nos ouvidos e de olhos nos monitores. Até que gostava de internet, mas era para ver imagens de bichos e ler sobre a vida selvagem.

Se bem que um dos colegas de sala gostava de cavalos, vivia falando de cavalos e sonhava em ser jóquei. Tinha também um vizinho que criava cachorros, mas Asefe não se afinava com animais grandes e com o cheiro de esterco de animais presos. Preferia animais minúsculos, soltos e sem dono. amigas-miudas

Uma manhã, Asefe viu uma formiga carregando outra formiga. Resolveu acompanhar o ‘funeral’. As duas passaram por uma roseira em que estava pousada uma vespa, que se interessou pela ‘comida’ e roubou a defunta. Esse acontecimento despertou muita curiosidade.

Ele correu para o computador e começou a pesquisar o comportamento das formigas e das vespas. Descobriu que são seres sociais, com elevados índices de organização ‘familiar’. Mergulhou nas imagens e nos textos; apaixonou-se pelos insetos.

Na hora do almoço, Asefe puxou conversa com os pais, que ficaram impressionados pelo entusiasmo com que o filho falava da ‘novidade’. A mãe prometeu então que, no feriado, o levaria para o sítio do pai dela e que o deixaria lá observando insetos por dois dias.

Esperar alguns dias pode ser muito tempo. Principalmente para quem está apaixonado. Aquela demora parecia eterna, tamanha a vontade de chegar logo ao sítio e andar pelos jardins e roças, acompanhando a vida miúda.

Enfim, o feriado chegou e a viagem começou. À medida que se afastavam da cidade, mais pássaros voejavam para todos os lados e até um lagarto atravessou a estrada, assustado com a intromissão deles.
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Chegaram. Vozé estava tangendo as vacas do curral para a pastagem, o galo cantava no cercado e, logo logo, uma galinha carijó cocodecou anunciando mais um ovo no ninho.

Ali no sítio, tudo tinha seu lugar e sua hora: o gado no pasto, as galinhas no cercado, o milho na roça, as frutas no pomar, as hortaliças na horta e as guloseimas na cozinha.

Por falar em cozinha, a mãe foi direto pra lá. Asefe fez de conta que não havia vacas, cozinha ou porcos. Depois de abraçar Vozé, saiu pelo jardim apreciando todos os seres vivos que, como ele, adoram flores. De repente, estalou na cabeça dele que as flores são o pasto e a cozinha para joaninhas, formigas, borboletas e beija-flores.

Aquela manhã parecia ser dia-de-festa no jardim do Vozé. Encontrou muito bicho conhecido tomando banho de orvalho e de sol. Mas, que mosquito é esse que está com as pernas embolotadas de um farelo amarelo?

Olhando melhor, percebeu que tinha muito desses mosquitos loiros que iam ajeitando aquele pó amarelo nas pernas de trás; só nas de trás. Quando tinham bastante, eles voavam para longe.

Nesse instante, Vozé passou por ali e ele já foi perguntando:

-Que mosquito é esse amarelinho?

-Mosquito nada. Isso é jataí. É bem diferente de mosquito: não pica a gente, não suga sangue e ainda faz um mel bem gostoso.

-Jataí? E onde vive?
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-Bem. Vivem por aí. Catam o pólen e o néctar das flores e fazem ninhos nos ocos das árvores, nos buracos dos moirões de cerca, nas taipas, …

-Vozé, você sabe de algum ninho desses?

-Vamos fazer assim. Depois do almoço, levo você, morro acima, até aquela floresta. Lá, vive um velho barbudo; ele tem muitas colmeias de jataí na varanda.
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Asefe nem prestou atenção ao monte de comida que a mãe e a avó fizeram e queriam que ele comesse. Sem fome, beliscou aqui e ali; só queria é ir pro mato. Porém, Vozé tinha suas manias e, antes de ir conhecer os ninhos de jataí, teve de esperar o avô tirar a soneca-de-todo-dia, mudar as vacas de piquete e apartar duas chocas que resolveram disputar valentia.

Finalmente, iniciaram a caminhada, morro acima. Asefe ia enchendo os olhos com o verde das matas, com a alegria da passarada revoando acrobaticamente, com o cheiro bom de floresta e com um arzinho que entrava macio pelo nariz.

Antes de chegar na casa do Véio Barbudo, Vozé, com muita cerimônia, foi pedindo que chamasse o velhinho barbudo pelo nome dele, que era Melo. Nada de falar Véio Barbudo. Pronto. Asefe fincou na memória: o nome do Véio Barbudo era Vomelo.

De longe, pelas frestas do mato, já dava de ver a casa. As janelas estavam abertas. Chegando mais perto, deu pra ver que ela era de madeira, com uma varanda das grandes e uns bancos compridos, de ripas, encostados nas paredes. Era uma casa muito bonita, com muitas árvores em volta, carregadas de frutas cheirosas.

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Vomelo deveria ser aquele que estava andando pela varanda, no meio de um monte de caixas. Ele olhava bem pra cada uma, como se estivesse procurando alguma coisa bem pequena.

Como a subida era bem forte, Vozé e Asefe estavam cansados; nem falavam pra não cansar ainda mais. Por isso, Vomelo só deu por eles, quando eles subiam os degraus de pedra que davam na varanda. Veio, então, ao encontro deles:

-Ô, vizinho. Há quanto tempo você não subia a montanha?

-Pois é. O trabalho ficou em casa, me esperando…

-Ainda bem. A gente precisa também descansar, conversar com os amigos.

-Pois é, pois é.

-Me conte as novas.

-Vim te incomodá, quem sabe? Esse meu neto é muito curioso e quer conhecer as tuas jataís.

-Que coisa boa! Ele tá certo mesmo. Só assim você deixa o trabalho um instante e vem prosear um bocado comigo!

-Vim pedir um favor ao amigo. Você deixa Asefe andar um bocadinho por aí? Ele promete não incomodar; ele é bem tranqüilo; só quer ver de perto as tuas jataís.

-Tanta coisa bonita pra ver… seja bem-vindo, meu jovem. A tarde está ótima para se apreciar a natureza.

E Vomelo virou-se pro lado daquelas caixas todas e foi andando varanda a dentro, mostrando uns canudinhos tortinhos… Bah! Naqueles canudinhos… na ponta deles, ao redor deles… estava cheio daqueles mosquitinhos, de roupa amarela e botas pretas. Tinha muito parado, mas a maioria voava ao redor daquele canudinho. Então, era ali a casa das jataís que andavam nas flores da casa de Vozé? Os ninhos delas estavam naquela fila de caixas penduradas na parede?
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Os dois vôs conversavam uma conversa lá deles, falando de coisas da roça, mas Asefe nem prestava atenção, tão entretido estava com a quantidade de jataís voando para todos os lados. Ficou maravilhado com as portas de cera das casas delas. Aí, reparou que elas saiam vazias e entravam carregadas.

Estava assim distraído, quando Vozé veio recomendar que não incomodasse, que não mexesse em nada e que fosse bem-educado. Disse que viria buscá-lo no final da tarde.

Deu graças que Vozé foi embora, pois queria ficar ali só observando aquela multidão de jataís, entrando e saindo das caixas. Vomelo falava com ele. Ele ouvia e respondia ‘com educação’, mas não despregava os olhos das jataís.

A tarde estava maravilhosa. Depois de encher os olhos, perguntou:

-Vomelo, elas são todas iguais? Elas entram em qualquer caixa?

-Não, menino. Elas são parecidas, mas não são iguais. E cada uma sabe a sua casa. Elas vivem em uma sociedade mais organizada que a nossa: tem rainha, zangão, princesa, operária, cria nova, …

-E tem príncipe também?

-Que eu saiba, não.

-Cria nova é criança?

-Xi!!! Que menino esperto! Isso mesmo: criança de jataí é chamada de cria nova. Bem… Aí, tem uma diferença: criança de jataí já nasce do tamanho das adultas e trabalha para aquecer os favos de cria, fazer faxina na colmeia, construir potes, entre outras responsabilidades.

-E o Conselho Tutelar não manda prender os pais delas por obrigarem as crianças a trabalhar?

-Não. Os humanos é que complicam as coisas; na Natureza, a vida flui sem melindres.

-Então, ninguém manda?

-Ô, menino. Aí, seria bagunça. Tem quem manda, sim. É a rainha. É uma sociedade matriarcal. Nela, macho tem pouco préstimo. Só pra acasalar, mesmo.

-Manda como, se elas não falam?

-Boa pergunta. Elas se comunicam pelos cheiros. Você conhece o cafofo?

-Cafofo?

-Cafofo, fede-fede, maria-fedida, percevejo, …

-Então, ele fede?

-Se alguém bulir com ele, ele fede, ele solta aquele cheiro horrível. Ele usa aquela catinga para afastar os predadores.

-Pra se defender?

-Isso mesmo. É como gambá. Melhor não bater no gambá, que ele logo catinga.

-Toda jataí tem cheiro igual?

-Aí é que tá. Manda quem tem mais feromônio, que é o cheiro de conversar e de mandar. E a rainha é que tem mais feromônio.

-Feromônio? Que troço é esse?

-Alguns animais marcam seus territórios com cheiros. Por exemplo, os cães urinam por onde passam para marcar o território que eles pensam que é deles. Esse é um cheiro ruim. Já, outros feromônios servem para atrair companheiros ou para conversar. Desses, a gente nem sente o cheiro. Só eles mesmos é que sentem.

Foi então que a coisa ficou melhor ainda. Vomelo resolveu abrir uma caixa e mostrar o ninho por dentro, como era, como as jataís ‘arrumam a casa’. Que coisa linda! O berçário, os potes de mel, …

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Vomelo deixou ele experimentar do mel de jataí. Doce. Bem doce. Porém, diferente do mel que a mãe comprava na feira.

-Vomelo, tem desse mel pra vender na feira?

-Pode que tenha, porém não é em qualquer feira. Só em feiras de produtos orgânicos ou de produtos naturais. Pois, o mel da jataí é remédio ótimo pra garganta inflamada, pro bom funcionamento dos intestinos, pros olhos, …

-Além de gostoso, ainda cura doenças?

-Não só cura, como também previne. Tem também o pólen. Veja esse pote aqui; está cheio de pólen.

-Pólen também serve pra comer?

-Sim. Tem muita proteína; serve pro crescimento dos animais. O mel é pura energia, que as jataís gastam trabalhando; mas, pra crescer, elas precisam de proteínas. Veja a jataí: miúda, mas forte, guerreira. E o que ela come? Mel e pólen.

-É mesmo!!! A jataí carrega bem as caçambinhas dela e nem pára na estrada pra descansar.

-É. Umas trazem pólen nas patas traseiras; outras carregam néctar na barriga.

-Vomelo, você encontrou todas essas colmeias no mato?

-As primeiras. É que eu adoro plantar árvores. Para isso, preciso de sementes de árvores. Bem… As sementes surgem das flores polinizadas e as jataís são ótimas polinizadoras. Principalmente, das plantas que têm flores bem pequenas. Aí, elas levam o pólen de uma flor pra outra e fecundam as flores. Bem… Aí, nascem as sementes das árvores que tanto adoro plantar. Andando pelo mato, percebi que havia mais e melhores sementes onde havia ninhos de jataí.

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-Então, você já conhecia a jataí…

-Conhecer, conhecer… Bem… Foi então que conheci as jataís. Primeiro vi algumas jataís nas flores de tarumã; depois, procurando, encontrei um canudinho amarelo e delicado entrando em uma fenda num tronco de caneleira. Ele era bem parecido com esses todos que saem dessas colmeias.

-Aí, Vomelo convidou as jataís pra vir morar aqui na varanda?

-Foi um pouco mais difícil. Depois de uma tempestade, fui ver o estrago e encontrei um ingazeiro grande caído na beira do rio. O tronco quebrou bem onde ele tinha um oco e, dentro do oco, havia muitos desses mosquitinhos dourados, com botas nas pernas traseiras, todos em volta dos discos de cria, que, naquele dia, pensei que fossem favos de mel. Aí, notei que elas estavam tentando proteger os filhotes que estavam por nascer.

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-Dava de ver?

-Não. Depois, soube que eram discos de cria, mas, naquele dia, fiquei preocupado: como ia salvar aqueles bichinhos? O ninho estava muito machucado. Logo vi que não tinha como consertar o tronco da velha árvore e eu jamais havia visto uma colmeia de jataí. Lembrei então de uma cabaça que eu usava pra guardar sementes. Vi que ela era grande o suficiente para colocar o ninho. Como a cabaça estava cortada como se fosse uma panela com tampa, ralei bem por dentro pra tirar as sujeiras e fui colocando os pedaços do ninho, mais ou menos do jeito que tavam no tronco quebrado. Com um pouco de uma cera grudenta que tinha em volta do ninho, colei as duas partes da cabaça e peguei aquele canudinho branco e coloquei num furo que fiz na cabaça. Bem… Aí, cometi um erro: levei a cabaça pra casa, para colocar num lugar seco.

-E isso tá errado?

-Tá, sim. No outro dia, voltei lá e tinha algumas delas voando e muitas outras andando pelos restos da casa delas.

-E ainda chovia?

-Não. Tinha parado. Vim pra casa com um peso na consciência; pensava: Como elas vão encontrar o ninho se eu escondi tudo na cabaça? Aí, tive uma idéia: levei a cabaça e coloquei em cima dos restos do ingazeiro… Não há de ver que elas gostaram da proposta e começaram a entrar na nova morada.

-E ainda tão lá?

-Sabe o que aconteceu? O verão foi embora e vieram uns friozinhos enjoados e elas trancaram a porta da cabaça. Pensei até que tinham morrido, mas, num dia um pouco menos frio, elas deram as caras e vi que eram elas mesmo que fechavam o canudinho. Ah!, pensei, quando elas trancarem outra vez a porta, levo elas para o paiol, na cobertura, pra proteger do vento, do frio e da chuva. Vi que elas gostaram e até hoje sempre coloco as caixas em um lugar com pouco vento, bem seco e mais quentinho.

A prosa tava animada, mas chegou o Vozé, pois já estava querendo anoitecer. Vomelo desandou a falar da esperteza do menino, curioso em tudo e rápido de cabeça. O jeito foi Asefe suspirar comprido e deixar o resto da conversa pro dia seguinte.

Vozé via que o brilho nos olhos do neto poderia iluminar até a estrada na volta pra casa. Mal saíram da varanda, Asefe começou contar tudo o que aprendeu naquela tarde. Estava apaixonado pelas jataís.

Depois de andar um bocado, se garantindo que não seriam ouvidos, confessou:

-Agora, tudo mudou.

-O que mudou, menino?

-Ora. O Véio Barbudo é Vomelo. Olhando de olhar, a gente vê um velho barbudo, mas, falando com ele, a gente sente que ele é um vô docinho como o mel. Tão calmo e sem briga nas explicações… E, também, pra lidar com as jataí, só se for uma pessoa bem manera.

-É isso aí: a lida com as jataís é chamada de manejo, mesmo.

-Manejo? Mas, manejo de quê?

-De mãos, menino. De lidar com as mãos. Jataí quer carinho de mãos; nada de máquinas automáticas. Jataí se desenvolve bem se o meliponicultor tiver um olhar manso e atento. E mãos jeitosas, é claro.

-Meliponicultor vem de mel?

-Também. Mel, Melo, Meliponini, melípona, …

-Essas então são as que põem mel nos potes?

-Isso você deve perguntar para o Melo.

Nisso, chegaram em casa e a Vó tinha preparado muita coisa gostosa para a janta. Porém, Asefe, na ânsia de contar as novidades, mais falava que comia. Tomou banho ainda falando das novas amigas, as jataís, tão trabalhadeiras.

Quando a Vó enfiou ele debaixo das cobertas, o pensamento continuava na varanda de Vomelo; como será que dormiam as jataís? E, aí, ele é que adormeceu.

Era ainda madrugada e Asefe já espiava pra fora da janela, procurando jataís. Bah! Como o Vozé e a Vó demoravam a acordar! Vestiu a roupa que a mãe tinha dito para usar nesse dia e foi pra cozinha esperar pelos dorminhocos. Bah! Como demoraram…

Finalmente, a Vó apareceu ainda muito sonolenta e pediu que ele ajudasse a arrumar a mesa para o café, que ia ser muito gostoso. Ele nem queria comer; disse que estava sem fome, que queria mesmo era ir logo lá no Vomelo. A Vó, então, riu muito dele, que estava tão interessado ‘naqueles bichinhos’.

Bah! Como demorou até Vozé decidir levar ele lá no Vomelo!!! Mas, agora estavam na estrada. Azefe ia bem à frente, parando vez em quando na espera do vô.

Vomelo esperava na varanda, com um sorriso no rosto. Estava ansioso para mostrar as colmeias que estavam debaixo das árvores, ao redor de casa e mesmo longe, no meio do mato.

Vozé estava com pressa e nem bem chegou, já foi voltando, com as mesmas recomendações do dia anterior: que fosse educado e que não causasse problemas.

Asefe ainda espichou os olhos pra varanda, com saudades das jataís, mas Vomelo já se escondia atrás da casa, sempre falando sem parar. Correu pra lá e … levou um susto.

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Viu as abelhas saindo das caixas. Ficou sem saber se corria ou se gritava. O curioso é que Vomelo continuava falando e rindo e não estava nem aí pra abelhas. Foi quando ele reparou na palidez de Asefe, ali pregado no chão.

-Que foi, menino?

-(Silêncio e olhos arregalados.)

-Já sei. Pensou que eram abelhas ferozes. Essas não são aquelas abelhas que metem medo. Essas são abelhas-sem-ferrão; elas não picam a gente.

-Não picam?

-Não. Veja: estou do lado delas. Essas são abelhas nativas do Brasil; são abelhas brasileiras.

-As que picam não são brasileiras?

-Não. Vieram do estrangeiro; da Europa e da África. Essas ‘estrangeiras’ é que picam.

-Então, as abelhas brasileiras nasceram aqui, não vieram do estrangeiro?

-Os índios já conheciam essas abelhas e gostavam muito do mel delas. Algumas tribos até criavam essas abelhas em cabaças. Por isso, elas são também conhecidas como ‘abelhas indígenas’.

-Essa daí é uma ‘abelha indígena’?

-Mandaçaia. Até o nome é indígena. Quer dizer: vigia bonita, porque tem sempre uma delas de guarda na porta.

Bem. Vomelo é muito bom e nunca mentiu pra ele. Por isso, Asefe garrou confiança e foi chegando devagarinho, passo-a-passo… Até ver mesmo que elas não estavam nem aí com ele; queriam era trabalhar. Trabalhavam mais que as jataís; iam e voltavam muito dispostas.

Vomelo foi logo erguendo a tampa da caixa, assim sem medo nenhum. E as abelhas – quer dizer – as mandaçaias andavam por ali e voavam em redor, mas não ferroavam não. E como eram grandes os potes de mel!!! Pareciam ovos de mel. E, outra vez, Vomelo deixou ele meter o dedo no mel e lamber o dedo, várias vezes. O gosto era diferente do mel de jataí; mais forte, de sabor inesquecível. Que delícia!!!

Tinha muita colmeia de mandaçaia e todas elas assim bem amigas, sem ferrão. Eram pretas com umas listras amarelas nas costas. Bem parecidas com as abelhas que ferroam a gente. Só que a bunda delas é mais redonda e não tem o ferrão na bunda.

Aí, Asefe voltou ao normal e, de novo, ficou curioso:

-Vomelo, só as mandaçaias são abelhas indígenas sem ferrão ou as jataís também são?

-Mandaçaia, jataí, guaraipo, manduri, jandaíra, plebeia, borá, bugia, tubi, … Tem mais de 300 espécies de abelhas-sem-ferrão.

-E aqui… também tem?

-Tem de algumas espécies. As de nossa região. Assim é mais fácil pra elas e pra mim. Elas estão ‘em casa’.

-Cada abelha-sem-ferrão é de cada região?

-Umas poucas espécies são encontradas em todo Brasil. Às vezes são bem parecidas, como umas amarelonas que a gente vai ver aí pra cima. Essas recebem nomes diferentes em cada região do Brasil.

Asefe estava confuso. Jataí era abelha-sem-ferrão. Mandaçaia também era. E tinha mais outros tipos de abelhas ‘que não mordiam’. Como é que, na escola, ninguém sabia de uma coisa tão importante e tão boa. Precisava contar pra galera toda; eles iam ficar com inveja dele que tinha visto tanta coisa bonita e que tinha se lambido com um mel tão gostoso.

Estava tão distraído com esses pensamentos que, quando procurou, Vomelo já ia distante, por uma trilha morro acima. Apressou o passo para chegar mais perto e fazer mais perguntas.

-Vomelo, posso trazer meus amigos pra ver as abelhas-sem-ferrão?

-Vamos pensar… Se eles forem como você, que gosta da natureza, dos animais, que respeita o meio ambiente, … Vamos ver, vamos ver.

Tinham caminhado um tanto e as pernas estavam pedindo descanso. Pararam então em um lugar em que as árvores deixaram uma janela que mostrava longe. A montanha em que Vomelo morava era alta e, de lá, dava de ver o sítio do Vozé, com o açude dos peixes, as cercas das pastagens, as vacas roendo grama e uma fumacinha saindo da chaminé do fogão a lenha.

Vomelo falou da tristeza que dava ver a terra pelada, lavada pela chuva, pra bandas daquelas montanhas, lá longe. Disse que a terra sofre muito com os venenos e com as queimadas. Apontou, adiante, uma roça de milhos desbotados, que tinham crescido só metade do tamanho. De fato, era muito triste de se ver.

Mas, precisavam chegar até às amarelonas. E logo apareceu a primeira caixa, com muitas abelhas amarelas entrando e saindo da entrada feita de barro. Vomelo aproveitou para explicar que esse barro não era puro barro; que as abelhas pequenas, como as jataís, fazem os canudos de cera com própolis e que as maiores, usam barro misturado com própolis, pra ficar mais firme e não desandar com aquela aguinha que elas soltavam pra fora.

Ah! Disse também que aquela aguinha era a umidade que elas retiravam do pólen, pra conservar melhor a comida delas.

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Nas entradas das colmeias, eram tantas abelhas entrando e saindo que até dava engarrafamento e umas tinham que esperar as outras passarem. Essas também eram lindas!!! Estava difícil dizer qual era mais bonita.

Ali também viram ninhos e muitos potes de pólen e muitos potes de mel. O mel era bem diferente; mais mole.

Quando soprou um vento, veio uma garoa e um barulho de água batendo nas pedras.  Quis logo saber o que era aquilo. Vomelo contou então que, andando pr’aquele lado, eles iam encontrar uma cachoeira. Era pouca água; apenas um corguinho de água bem fria.

Foram andando e, antes da cachoeira, já encontraram outras colmeias de abelhas: eram as guaraipos. Vomelo explicou que elas precisam estar sempre perto da água, por isso é que ele colocou elas ali.

Mais uma vez, Vomelo abriu umas caixas e eles meteram o dedo nos potes e lamberam o mel. O mel das guaraipo é mais gostoso ainda. Delicioso!!!

Pena que o tempo voou e eles tiveram que voltar pra casa. Mesmo voltando, Vomelo continuou a conversa:

-Sabe, Asefe, depois que encontrei aquela primeira jataí, nunca mais tive gripe. Talvez seja do mel que sempre roubo um pouco dos potes delas… Mas, nunca mais tive gripe.

-Se eu tiver em casa uma jataí também não vou mais ter gripe e dor de garganta?

-Uma colmeia de jataí ou o mel de jataí. Ou as duas coisas.

-Mas, eu moro na cidade…

-Pois tem jataí que mora na cidade também…

-Quando a mãe chegar, vou pedir que compre pra mim uma caixa de jataí, dessas que moram na cidade.

-Pode ser qualquer uma. Elas logo se acostumam com a cidade, pois flores há em muitos lugares.

E entraram na varanda do Vomelo, com todas aquelas caixas de jataís. Vozé já estava ali sentado num dos bancos, à espera deles.

-Vozé, o Vomelo disse que eu nunca mais vou ter gripe.

-Ô Melo, o que você andou enfiando na cabeça do meu neto?

-Os jovens de hoje só aprendem o que querem aprender. Se ele não tivesse interesse, nem adiantava forçar… Aprendeu porque decidiu conhecer; aprendeu porque viu as colmeias com os olhos dele e sentiu o gosto do mel com a língua dele.

-Mas dizer que ele nunca mais vai pegar uma gripe…

-Pois foi o que aconteceu comigo. Claro que, vez em quando, passa por mim uma esquadrilha de vírus, mas o corpo tá preparado e rebate. E tem mais: as abelhas dão muita sorte, mesmo. Depois que passei a criar abelhas-sem-ferrão, nunca mais faltou dinheiro em casa. Passou a tristeza, nunca mais estive doente, … Não sei explicar, mas parece que todas as coisas começaram a dar certo.

Asefe concordava lá dentro dele; ele também, desde ontem, estava muito feliz, não sentia dor de dente, nem dor de nada e se considerava um menino de sorte.

 

 

 

 

 

 

 

Endereço dos autores:

Douglas Silva Santos – douglas_fair@hotmail.com

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Mario Tessari – mariotessari@gmail.commariotessari@ymail.com – Caixa Postal 8

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